sexta-feira, 18 de maio de 2012



    VICIO DE LUGARES
LONGA DURAÇÃO
Direção e Roteiro

Fabio Rocha e Marcos Pierry

                   HD FULL, 80 min, Cor
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(...) É fantástico viver espiritualmente. Dia após dia testemunhar para a eternidade o que há de puro, de espiritual nas pessoas. Mas às vezes farto-me desta eterna existência de espírito. Nessas alturas gostaria de não pairar eternamente. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à Terra. A cada passo ou a cada golpe de vento gostaria de poder dizer: "Agora, agora, agora" e não "desde sempre" ou "para sempre"(...)
Wim Wenders

Uma certa justificativa


A produção de um filme é por si só uma justificativa no campo da cultura. Mas devemos justificar mesmo o nosso trajeto, de modo que qualquer outra justificativa plausível para encontro entre cineastas locais com um dos mais representativos cineastas do mundo, seria menor. Nosso encontro com o cineasta alemão Wim Wenders, ícone do Novo Cinema Alemão, realmente não seria justificativa para que um filme de Longa metragem feito com o diretor e roteirista em Salvador (1. Etapa do processo), e em Berlim (2. Etapa em fase de Pré-produção). Não fosse o desejo de fazer com que um filme feito em Salvador, com nosso sotaque, nossas cores locais, confrontando com as cores mais próximas de Wenders; não fosse a vontade de expressar através da linguagem cinematográfica o nosso povo, a nossa terra, os nossos costumes, e mesmo a contra análise social, o seu fora, o seu vazio, as suas faltas, o fora íntimo desse encontro, a alemanha do pós guerra impressa nas películas do cineasta, e ainda muito vivas nesse sexagenário artista.
Bem gostaria de justificar esse filme de longa metragem, não somente pela sua necessidade (o ato de criação), não somente pela dimensão estética, nem tampouco pelas sua magia, ou valor de mercado, mas pela alma coletiva que pode engendrar, pela política, pela força que sempre surge de um bom encontro, de uma quebra de fronteiras, de uma movimentação em torno dos temas propriamente cinematográficos, e também , e sobretudo, uma mostra das relações entre espaços, geografias mentais, arquiteturas invisíveis, e mais que tudo, a potencia de agir no seu local de produção conectando isso com o delírio universal, que está impregnado na obra de Wim Wenders, e que por hora não nos serviria apenas como rememoração, um voltar-se para o passado, mas impulsionar através da arte outros operadores sociais, outros conceitos, outras ecologias, outros novos rumos. Talvez seja pretensioso mesmo viajar com o cinema e não apenas no cinema; fazer um link entre os seus e os outros, impondo uma alteridade produtiva, impulsionando o mundo contemporâneo das imagens para um cerco, qual seja; a sua natureza. O que é uma imagem? A resposta é a nossa abordagem, visão original, objetivos e justificativa, em suma, uma só parágrafo: por menor que seja, por mais periférica a minha participação nessa empreitada do cinema mundial de compor um conjunto de imagens que definem os padrões, as normas, as cópias, o meu desejo de produzir um sentido a partir do LOCAL, com um olhar singular, a produção de sentido pela montagem de um filme DOCUMENTAL, como o nome atesta, ainda que com suas fabulações e ficções internas, é a própria distribuição de errâcia e até mesmo de 'delí-rio' cinemático em que as coisas se desdobram agora: juntar pessoas que estão desconectadas; juntar histórias soltas; juntar países distantes, juntar o dentro com o fora. Existem os cinemas que se preocupam com as transformações; nas formas, funções, efeitos, causas, conteúdo, expressão, tudo a um só tempo; é assim que justificamos esse pequeno longo filme de viagem.
A diferença entre partilhar um espaço fechado e se repartir num espaço aberto, entre distribuir aos homens um espaço consequentemente dividido em partes e distribuir os homens num espaço indiviso, tem primeiramente um sentido pastoral (o nomos grego, antes de significar a lei, remete em primeiro lugar a atividade de "fazer pastar”. Nosso filme de Estrada – Road Movies – á maneira de Sr. Wenders (Paris-Texas, No decurso do tempo, Alice nas cidades, etc), atesta para nós duas maneiras de fazer cinema: a do criador e a do representativo? Gostaria de nos colocar em cima do Muro! Decerto não, já que, por sua vez, os valores socio-históricos não se sustentariam se o muro não caísse, e com ele todos os que não emitiram através de sua arte, de seu cinema, de sua música, uma tomada de decisões; no nosso caso, talvez possamos agora dar o incremento que faltava a uma justificativa: fazer um cinema político.
É nesse sentido que o cinema nômade se define, menos por seus deslocamentos, como o migrante, do que pelo fato de habitar um espaço liso um deserto ou estepe, que te permita refletir sobre a imagem, e no limiar propor outras, quem sabe, com bastante prudência, abordar a relação entre IDENTIDADE, MEMÓRIA, e ERRÂNCIA. A forma desse filme é simples para um conteúdo complexo. Sugerimos um tipo de estrutura em blocos interconectáveis; digamos uma rede: rigorosamente: o olhar tecnológico acerca dos eventos: texturas da TRADIÇÃO; construção de paisagens; um imbricamento da fabulação na realidade a fabulação. uma pausa para um olhar mais íntimo para as cidades-mundos; uma visão de dentro acerca das coisas, dos eventos; das mudanças, das persistências. Esse traço da montagem atravessará o plano de composição; e diz respeito aos documentaristas se relacionando com personagens reais; produtos materiais e imateriais, imagens de arquivo; manifestações culturais; com a própria idéia de memória e documento, e com o desejo de confecção de um filme; as vozes são vozes etéreas - Voice-over -  ditando o ritmo da montagem (o olhar não é livre, mas dirigível) com as questões que fizeram com que nós mesmos (enquanto realizadores) percorrêssemos.
A intenção dos realizadores aqui de justificar o vosso cinema (em pleno curso) dando voz a coisas que jazem caladas na confusão do cotidiano; olhar para coisas que as pessoas passam sem se dar conta, fazendo com que o filme possa mesmo ser um instrumento na transmissão dos saberes e na iniciação das gerações mais novas no  universo da míxis cultural (multiculturalismo), além de poder servir como fonte para estudiosos e pesquisadores sobre o tema da natureza da imagem cinematográfica.
Então não se perguntará qual o sentido de um acontecimento CINEMA: o acontecimento é o próprio sentido. Em todo acontecimento, há de fato o momento presente da efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que é designado quando se diz: pronto, chegou a hora; e o futuro e o passado do acontecimento só são julgados em função desse presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas há, por outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado em si mesmo, que esquiva todo presente porque está livre das limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e préindividual, neutro, nem geral nem particular, eventum tantum...;ou antes que não tem outro presente senão o do instante móvel que o representa, sempre desdobrado em passado-futuro, formando o que convém chamar de contra-efetuação. É nisso que o desejo é o verdadeiro potencial revolucionário. Vocês não podem apreender ou conceber um desejo fora de um agenciamento determinado, sobre um plano que não preexiste,mas que deve ser ele próprio construído. Eis o que justifica o nosso projeto: pensar o cinema, agir com o cinema, trasmutar as palavras e as coisas com imagens, sons e pessoas.

                                Um Filme em Movimento



Dois cineastas vão em busca de um motivo para fazer um filme. Passam por muitos lugares: um deseja passar u pela probidade (Redlichkeit), o outro deseja tornar-se a si mesmo (Selbst-werdung), os dois querem fazer um cinema autônomo, cinema com auto-suficiência (Eigenständigkeit). No trajeto eles se frustram, caminham, se apaixonam, viajam, experimentam a vida ativa, fogem sem sair do lugar. Em tudo isso há uma busca (Nomadismo Polítyko) de salvar suas vidas de uma catástrofe de mutismo, numa tentativa de superação do obstáculo de ser criador na América Latina. Os diretores vão para muitos lugares: de Salvador a Berlin, da crise das metanarrativas ao erotismo, passando pela morte. Trata-se de um Filme-Hyponemata, uma caderneta imagético-sonora, uma viagem por espaços quaisquer, um VÍCIO DE LUGARES.
Estamos em busca de um Cinema-Viagem (Motivo perpétuo), uma tentativa de encontrar lugares estranhos e quietos, que nem todos encontram - ou simplesmente não podem enxergar - na loucura da Invenção do Cotidiano. Muitas vezes eles estão abandonados, ou perdidos, esquecidos; mas esses Lugares-esquizas (esquisitos) têm uma beleza própria, uma potência revolucionária implícita que deve ser achada, justo porque é que estamos investigando-propondo. Estamos em busca de um pequeno trajeto pelo cinema do real; gostamos de ir sozinhos, apesar de atravessarmos vários cantos (perigo das misturas tenebrosas) e todo tipo de gente, gostamos de nos perder e nos encontrar nas palavras e nas coisas; temos um instinto muito especial para achar o que desejamos, e é isso que estamos procurando-achando: os espaços quaisquer para a criação, sobretudo submeter o olhar cotidiano a um escrutínio cuidadoso num grande número de trabalhos que instalam sempre o poético pela via do paradoxo, justo porque temos a obsessão do banal e do mistério, que muitas vezes fazemos coincidir.
É muito raro que alguém tenha nos mostrado alguma coisa interessante nos últimos anos (salvo o próprio cinema) queremos colocar a lente de aumento para ver mais de perto, olho de peixe do real-onírico. Constatamos numa pesquisa rigorosa na micropolítica do dia-a-dia que a maiorias das pessoas não são curiosas nas suas próprias casas, ruas, cidades: “Você acha que sabe tudo, você conhece seu caminho usual, mas não conhece os segredos da sua cidade.” Nós experimentamos justamente esses mistérios guardados nas colunas da tradição e da modernidade, fissura entre a natureza e a cultura. Durante essas viagens (Cronograma descontínuo) não surgem idéias ou locações para o próximo filme, não estamos somente Além das nuvens, mas com o pé no chão, e tentamos não ter muitas idéias; apenas atravessamos o plano de composição da vida, a superfície; esse lugar da inscrição dos acontecimentos. Queremos conhecer esses lugares, descobrir suas almas, o espírito dos tempos (Zeitgeist), as histórias que suas populações (volksgeist) seus homens e mulheres têm para contar. Trata-se de uma questão intuitiva, e não temos nenhuma outra intenção, senão estar lá e fotografar, e ver, e ouvir.
VÍCIO DE LUGARES: um filme de estrada! De mar, de céu, de carro, de bike, de helicóptero, de caminhar, de trem. Um filme de trânsito entre cidades: Salvador, São Paulo, Berlin. Um giro com (às vezes sem) o “Sr. Cinema” - Wim Wenders – um dos cineasta mais representativo do cinema mundial em produção. Pretendemos fazer um reCORTE na atualidade a partir desse encontro; um passeio buscando as relações menos prováveis entre o indivíduo, o cinema, a estética e a política. Cada corte-fluxo, um desejo de nomadismo na arquitetura social e desejante desses lugares. Pensamos que esse tema-objeto (ERRÂNCIA) possa ser um espaço privilegiado para questionamentos e para a criação de uma singularidade imagético-sonora, na medida em que o uso das estradas (conceito abstrato) possibilita uma reinvenção das esferas de poder; tanto pela desestandardização de estruturas, quanto pela multiplicidade de quadros de sentidos na atual conjuntura mundial integrada. No imprevisível do trajeto e, sobremaneira, pelos signos ligados à modernização e a mundialização dos gostos, redirecionaremos o boom do nosso cinema - não mais como Forma-mercadoria - mas como devenir-andarilho, para revelar as demàrches pelo “desencantamento do mundo”, pelas paisagens urbanas, pela máquina e pelas formas de trabalho e de poder derivadas do capitalismo perfiférico e seu contraponto, ainda que não estejamos em busca da Galáxia de Gutenberg, e sim de algumas pequenas galáxias;; idas e vindas entre uma casa do cinema e um cinema de rua.
Muitos paradoxos até então invisíveis devem emergir do Acaso-construção; quais sejam: os que têm algo de ver com a querela entre o profundo e o superficial, entre o tempo e o movimento, entre complexo e o singular. Ademais, e justo porque um encontro nunca acontece completamente, é que vemos nessa intenção-processo, nesse nosso vício do fora, uma possibilidade de diálogo entre o local e o universal (absoluto). Isso seria por si só uma justifica bastante plausível no Campo da Cultura: fazer da produção de registro imediatamente uma produção de consumo; uma produção de produção; e em última instância, uma reação á pauperia, ao silêncio, e ao esvaziamento e vacuidade de muitas produções contemporâneas.
Gritaremos com esse Cinema-urgente como um duplo vínculo entre a existência material e a existência poética, entre o indivíduo e os modos de singularização, entre a fixidez e a mobilidade. A vida em movimento e a re-configuração dessas temporalidades numa trip poética dos espaços-tempos. De Texas a Paris, da Alemanha a Salvador tudo é movimento em falso. Queremos saber qual o estado das coisas na atualidade? Como ligamos uma obra verdadeiramente cinematográfica com a arquitetura, e os labirintos de poder de algumas cidades? O Filme de Nick, de 1980; Tokyo-Ga, de 1986; Asas do Desejo, de 1987; Buena Vista Social Club, 1999; em grande parte dos filmes de Wenders, o automóvel atesta o fascínio que alguns cineastas têm pelas estradas. Daí a nossa empreitada de levar um homem de cinema pelas trilhas de nossa Baía, ainda em trânsito entre o moderno e o colonial; entre o barroco, as identidades fixas; a arquitetura invisível e as fotografias em preto e branco das vilas de outrora e do parafuso (Elevador Lacerda); entre a natureza e a cultura; entre o cinismo e a tragédia. É também nosso desejo ver e dizer para além dos muros quebrados de uma Berlin, da polifonia de São Paulo, passando, sempre de passagem. Um passeio pela evolução física da cidade mais quente ao sul do Equador; e pelo que há de mais frio na alma humana, o seu intermezzo.
Queremos (Sempre o desejo!) re-agrupar o espaço-tempo, recortar instantes, aceitar e evidenciar o extemporâneo para, enfim, jogá-lo no fluxo da Montagem de Giro, e definitivamente passar de um lugar para outro no couro de um banco de carro, nas asas do avião, nos trilhos do trem, sempre com um espírito de gravidade (como bem colocou um alemão nato: “Quando não se coloca o centro da gravidade da vida na vida, e sim no além, no nada, tirou-se da vida o seu centro e gravidade" F. NIETZSCHE.). Ora, se o escapismo é um de temas preponderantes desse cinema que nos cruzou o caminho; esse que encontramos, no acaso e no caos de um curso, já não há dúvida de que esse é o único modo para existirmos cinematograficamente: questionar a própria natureza do ser cinemático. Pensamos poder utilizar esse elemento como mote para outras questões menos prováveis entre os temas de uma obra, a vida dos homens nas cidades-mundo, e uma linha de fuga para os problemas planetários.
Sabemos (quem?) que os fluxos contemporâneos, as mutações do corpo e a polifonia das cidades-mundos estão na ordem do dia. Daí Essa é base do nosso plano de produção-filmagem: os signos. O desafio é fazer ver e dizer isso nas telas; rebatendo toda a produção de sentidos no muro branco das cidades-mundo. O automóvel e o cinema; a estrada e o homem; a cidade e o criador como fios condutores do processo documental; verificando através das transformações na História das Mentalidades; em quais circunstâncias os monumentos do cinema se transformam em documentos e vice-versa. Discutir-produzir um conjunto de imagens que ligue o corpo social ao espírito do cinema através da memória, num contexto de modernização das práticas e significados sociais: eis a nossa proposta. De que modo se materializa o diálogo entre o auto e o móvel; entre a alegria de se movimentar e a plenitude da imobilidade; entre temas-objetos que pulam da imagem em movimento? Eis a nossa questão, eis o nosso recorte, eis a nossa estrada perdida, vamos subir bem alto (da torre de televisão Fernsehturm) para um olhar mais amplo.
O filme VÍCIO DE LUGARES pretende abordar uma personagem real do universo cinemático com as ficções do século XX; de um “jeitinho” bem peculiar, qual seja, tomando o encontro de corpos como exigência elementar para a experiência documental. Partimos da contribuição do pensamento e da práxis de Wim Wenders para fazer uma crônica da Cidade do Salvador; um trajeto circular (eterno retorno) para tentarmos compreender de que modo a estrada e o cinema encontram-se enquanto atividades de criação. Faremos um filme curto a partir de longas VISITAÇÕES na História Cultural, ou melhor, um Filme Longo de curtos trajetos; sem nunca dar a bobeira de parar; recusamos a máxima de que quem pensa, pensa melhor parado! Somos peripatéticos; e se alguém quiser saber o que isso significa, melhor nos diz o Inventor do Ditirambo em sua Gaia Ciência: “(...) não queremos apenas ser compreendidos ao escrever, mas igualmente não ser compreendidos(...) E, falando cá entre nós, sobre o meu próprio caso – não desejo que minha ignorância e a vivacidade de meu temperamento impeçam que eu lhes seja compreensível, meus amigos: não a vivacidade, por mais que ela me obrigue a lidar velozmente com algo, se chego a lidar com ele. Pois encaro os problemas profundos como um banho frio – entrando rapidamente e saindo rapidamente. Que assim não possamos chegar à profundidade, descer o suficiente, é uma superstição dos que temem a água, dos inimigos da água fria; eles falam sem experiência. Oh! O frio intenso torna veloz! – E pergunto de passagem: uma coisa permanece de fato incompreendida e não conhecida por ser apenas em vôo tocada, avistada, relampejada? É preciso absolutamente ficar sobre ela? Chocá-la como a um ovo? O que isso significa? Nada! A produção de um corpo-obra não é tranqüilizador, podemos falhar é verdade; somente através de um conjunto de práticas ,às vezes aterrorizante, às vezes alegria intensa, é que podemos querendo como um espírito de gravidade me tornar um bom dançarino do acaso e do caos, desejo de dançar no ar e deixar nas nuvens essas nossas cine-anotações, justamente as práticas de elaboração de si (áskesis), resultando na constituição, ou melhor, na criação da paraskheué ou instructio, de uma espécie de preparação para os reveses da própria vida, uma espécie de escudo, armadura, proteção, defesa que se tem à mão para enfrentar ou se ajustar àquilo que conhecemos, a vitalidade, uma coragem da verdade, donde o de falar (parrhesía) aqui vira escritura: Hypomnêmata - espécie de cadernetas pessoais, anotações de lembranças - com que precisamente poderemos, graças à leitura do olhar ou a exercícios de memória, um rememorar-produzir coisas novas a partir do já-passado; uma ética do cuidado de si, um cinema que é , nada mais, nada menos que uma  hermenêutica do sujeito.
Por outro lado, e, antes de tudo, pensamos esse filme como uma Produção de Sentidos, pois ele interroga a experimentação cinematográfica com problemas da atualidade e da virtualização dos territórios existenciais (O existencialista declara freqüentemente que o homem é angústia Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade nteira, não consegue escapar ao  sentimento de sua total e profunda responsabilidade). Portanto, entendemos esse processo como eminentemente Polítyko, muito embora, o modo de ver e dizer as palavras, os homens, as cidades e as coisas sejam modos singulares e não individuais somente.
Quando nos debruçamos sobre a vida de um homem verdadeiramente cinematográfico, e pensando mais na conversação entre o homem e a cidade vemos uma chance rara de fazer emergir do discurso um repertório de práticas e representações sociais que revelará as diferenças e as repetições, as raridades e os furores secretos disso que convencionamos chamar de “Dispositivo Cinemático”, ou seja, um conjunto de enunciados; leis, moral, psicologia de massa, discursos, uma estética, em suma, tudo aquilo que circunda e atravessa o fazer audiovisivo. Nossas mãos contornarão o discurso da esmola da geopolítica do trópico; o coronelismo do olhar e da fala; as identidades forjadas; a nordestinização abjeta; o fluxo de formações imagético-discursivas que deram a este lugar um desenho estranho, quando não ressentido. Buscaremos a emergência de problemas fundamentais que surgem do acaso-construção, permitindo um embate de idéias e o forçar do pensamento como constituição de problemas que correspondam à nossa própria história e a uma pequena parte da história do cinema. O acontecimento; o ato de pensar; o transito pelas arquiteturas invisíveis; as transformações da mentalidade social; negando a reprodução e a simulação, e fazendo da andança uma condição necessária para a atividade cinemática, pois é ela que viabiliza a criatividade e a singularidade do fazer e, conseqüentemente, permite superar as dificuldades e as exigências inerentes ao processo de constituição dessa prática. Não basta que eu saiba e ,portanto, disponha dos elementos necessários ao julgamento  para reverter em mim uma imagem que em nada corresponde aos estímulos objetivos: é somente quando me desloco a um ângulo apropriado, vendo, por exemplo, essa mesma figura a partir da extremidade de uma das retas, que o campo se reorganiza e as linhas emergem em sua configuração paralela.
Essa paisagem nova, essa reorganização súbita do campo que encontro, pela minha teimosia e pelo meu interesse, e já dispondo da chave da ilusão, é que constitui, finalmente, o que é o ato de atenção uma mudança nas relações de contexto a partir de certa motivação pela qual me dirijo a ele. Mas essa é antes um interesse, uma intenção, que só existem em direção às coisas presentes, ao Ser que me acolhe, do que a posse de um poder constituinte que torna possível que haja, para mim, mundo. É preciso dizer ainda que, nesse sentido, o diálogo com um ícone causa tanto fascínio que muitas vezes não nos apercebermos dos profundos – e superficiais – aos signos que estamos presos e de suas constantes “armadilhas”. Por isso mesmo, demarcamos o nosso VÍCIO DE LUGARES, o solo epistêmico por onde caminharemos. É possível que alguém diga que neste tipo de situação, o discurso dialógico seja uma espécie de disfarce, de camuflagem; por isso deixamos claro que é também nossa intenção investigar essa ambigüidade presente na efetivação do diálogo. Dito de outro modo é como se houvesse um processo de reificação do próprio diálogo no decurso do documento audiovisivo. Nossa pretensão é apresentar uma alternativa para superar tal ambigüidade apresentando o diálogo como contingência, como meramente acontecimental; e para dar conta de tal empreitada faremos uso na Montagem dos conceitos de conversação e de redescrição para colar a tessitura da obra (...) que o cinema é o único motivo que ainda pode salvar um cineasta da sua decadência, converter o impedimento em meio, o obstáculo em estímulo, a adversidade em bênção, fazer um filme dessa maneira é uma vitória pequena sobre o espírito de peso, uma superação da falta, da preguiça e da pusilanimidade que nos levam a uivar com os lobos e renegar nosso verdadeiro si-mesmo, como quem diz minha doutrina está em perigo: imagem-tempo, o pensamento do retorno, cinema do vazio. Aqui não há herói que desafia o monstro para a luta, o qu se apresenta aqui é uma atitude verbal ameaçadora, um posicionamento de peças de artilharia mais pesadas. No primeiro round estão saturados de tudo; qualquer coisa é melhor do que deixar que esse estado se mantenha. A consciência subseqüente faz com que eles experimentem no segundo momento um ritornelo, uma repetição da diferença, repetimos o desafio na seqüência inversa, nomeando o tema do combate e sublinhando a sua certeza da vitória. Como sinal de vitória, aceitamos o desafio de fazer um filme sobre o MOVIMENTO. O que pode despertar a nossa "curiosidade"? Ninguém sabe o que pode até experimentar. E é isso que os personagens fazem: vão em busca de experimentar um corpo, um conjunto de imagens que os ligam o regional e o universal através da memória geográfica; de Berlin (atravessaremos o Portão de Brandenburg)  a Salvador, passando por lugares estranhos, levando os dois a serem os porta-vozes da vida na cidade. O ataque verbal os conduz num caminho de direções opostas muitas vezes. Ambos os caminhos vão dar no mesmo lugar: o cinema em crise, mas ainda assim, o único caminho pra preencher o espírito. Queremos perceber melhor o nosso ser-no-mundo e concordamos com Merleau-Ponty, para quem: “Perceber não é experimentar um sem número de impressões que trariam consigo recordações capazes de completá-las; é ver jorrar de uma constelação de dados um sentido imanente sem o qual nenhum apelo às recordações seria possível.” Mas ,se a percepção se torna “interpretação”, o “sentir” tornou-se vazio: “a sensação não é sentida” e palavras como “ver” ou “ouvir”, inerentes a uma circunstância, perdem o sentido frente a uma consciência coletiva.
Em muitos momentos juntos, em tantos outros separados, transcorrem em direções opostas; caos e acaso na estação dos pés; eles já não conseguem separar o presente, do passado e do futuro. Para eles tudo o que é reto mente (...). Um filme circular, donde toda verdade é curva, o próprio tempo é um círculo. Imagem-tempo. É a nossa versão do pensamento do retorno. Como. E o fim? Apenas o começo! Tudo novamente do mesmo modo, é melhor caminhar – ou melhor: um passo. Pois a verdadeira prova só virá depois. O ápice da argumentação não é novo: o mero pensamento do círculo ou da repetição intensifica-se na repetição infinita de tudo na mesma ordem e seqüência. Essa radicalização acerta na medula o "pessimismo fraco" dos que não acreditam que o cinema é política, diz respeito ao modo como cruzamos territórios existenciais com a essência do desejo. Os cineastas pensam em auto-apresentação. Não se trata de fazer a guerra contra o feio. Menos ainda acusar este ou aquele. Desviar o olhar: que seja a única negação! Se Édipo saiu vitorioso, fiquemos sozinhos, ainda que possamos ter medo dos próprios pensamentos...
Lancemos um olhar no próximo quadro da cidade e suas interconexões afetivas com outros lugares... – os porta-vozes do círculo – com a coragem do viajante, com a perspicácia do homem local, com a  simpatia do turista e a solidão do artista, e, na maior parte das vezes, o silêncio revela mais que as palavras. O filme é uma exigência de que nos tornemos seres eminentemente cinematográficos. Nada passará incólume: o desejo incestuoso, a inveja, culpa etc., etc., etc., a arquitetura e o poder, o erotismo e a morte, o povo e as elites, a cultura dominante. O que nos move, porém, não é a penúria alheia, mas a própria abundância; o que os impulsiona não são as carências, mas o transbordamento do mundo.
Não queremos ser somente iconoclastas e destruidores, não queremos mais desmascarar e demolir; doravante, querem apenas afirmar a potência do cinema. E terminam por apresentar um pensamento e os protagonistas. O pensamento de que tudo retorna sem cessar requer que abandonemos o além e nos voltemos para este mundo em que nos achamos; exige que entendamos que eterna é esta vida tal como a vivemos aqui e agora. Os protagonistas, saturados de sua própria sabedoria, têm de deixar a solidão e nomadizar para encontrar as forças que atravessam e os recortem, fazendo-o funcionar um outro modo de documentário, cujas lentes estão apontadas para as questões de nosso tempo, questionando temas como origem, finalidade, progresso, evolução, continuidade e linearidade, possibilitando uma alteração efetiva de posturas. O conceito de resistência aparece aqui como outra peça-chave. Quando tudo parece acabar, tem sempre algo mais. E quem resiste responde a alguma coisa, sua ação é reativa e tem seu sentido naquilo que a gerou. Criação supõe o completamente novo, o que tem sentido essencialmente positivo e inexplicável racionalmente. Nada determina a criação, a passagem do nada ao ser. Estamos perseguindo o colapso da individuação.
A Ars polítyka aqui corre no sentido de marcar posição na economia do desejo, reconfiguração dos processos de alienação do sujeito por processos de emancipação da subjetividade em foco; esse pouco que propomos agora,  consiste em inserir a fala, (seja em Off ,seja em Sync) no lugar do discurso como elemento de mediação e não o processo clássico de tomar o discurso por fala, e pensarmos (esforço para produzirmos Imagens) tais multiplicidades que compõe hoje o universo das Cidades-mundo, partindo do conceito de "ESTÉTICA DE REDE", uma espécie de conjunto de linhas de composição se entrecruzando, procedendo por variação, conquista, captura, uma démarche de heterogêneos, um mapa que pode ser desmontado, revertido e conectado em outros lugares; um conjunto de linhas de verticalidade e horizontalidade, que estria o espaço urbano, com contornos de singularidade e sensibilidade artística, e numa tentativa de melhor entendimento das linhas duras do SOCIUS. A Estética proposta é esse lugar de passagem, sempre um ir e vir em movimento. O ponto de partida para os trajetos; aquilo que podemos chamar de imagens-sonoridades "não-convencionais", o ponto de chegada, temos uma ligeira impressão. Três critérios, porém: 1 - separação da imagem e do som (separar para depois sintetizar); 2 - composição em múltiplas camadas espaciais (preenchimento do espaço físico e não somente do tempo); 3 - igualdade entre tom e ruído (princípio da atonalidade). Perambular incessante; ir e vir a certos lugares...O empirismo não vê que precisamos saber o que buscamos, sem o que não o procuraríamos, e o intelectualismo não vê que precisamos ignorar o que procuramos, sem o que novamente não o procuraríamos.
Outro elemento importante que destacamos: uma paisagem em dia de neblina, a penumbra no quarto ao amanhecer, quando o olho experimenta o limiar entre ter cores ou somente tons de cinza, ou ainda as cores cambiantes do céu no “lusco-fusco”, nos lembram o quanto vivemos em meio a situações indeterminadas, às quais recusamos o estatuto de realidade, por conta das teorias que nos obrigam a tratar sensações como definidas, num mundo de objetos definidos. Ao fazê-lo, negamos o caráter experiencial de algo que não é necessariamente “isso” ou “aquilo”, mas “nem uma coisa, nem outra”. As cores que são bem o exemplo costumeiro da “qualidade pura”, mostrando a dimensão dos problemas reais aí colocados. Ora, uma coisa é ver cores - dependentes de uma série de variáveis, como luz, área ocupada pela cor, as cores em sua periferia, como o mostram os diversos trabalhos apaixonadamente dedicados à cor, de modo que o mundo que a percepção torna presente vai se desenhando, então, como a presença de um cenário, já investido de certa ordem, certo sentido; que é móvel comporta ambigüidade, é vivo e inacabado, mas não é redutível nem ao caos das sensações nem à pura somatória de partes autônomas e distintas, como o quereria um modelo de um cinema objetivo.
É preciso dizer, no entanto, que temos um Objetivo principal; qual seja: a produção de um FILME de LONGA-DURAÇÃO que seja um instrumento para novos-outros modos de subjetivação. Paratanto, temos uma TÁTICA muito mais que uma estratégia. O plano tático:  produzir blocos de movimento-duração, ou ainda, reagrupar/desfragmentar espaços de poder, um “fazer surgir" na tela de outros dispositivos sociais de tranformação real. A tática deve ser ágil e flexível, improvisação, acaso-construção, busca de uma travessia sensível; singularidade, depende de uma economia de presentes (gift economy) dados pelos personagens; e um explorar de furos no sistema (loopholes); ela nos possibilita a infiltração; não tentaremos aí vencer ou dominar o sistema; e sim um “fazer ver” de outras transparências e opacidades que sairão das costas da conformidade num preenchimento global das necessidades de Homocine Cinepolítykus; uma forma de subversão possível contra os modos de esquadrinhamento dos sistemas urbanos. Os cineastas mostram, passo-a-passo,  um gesto de advertência, o pensamento de uma outra existência...de algum modo, a superação da dicotomia entre arte e vida...
Um FILME-EVENTO. Um automóvel de divergências e convergências que se mesclam a lei seca do pensamento, um misto de tudo que acreditamos durante o trajeto: as paisagens sonoras; as flores do estilo, notícias amargas, os trejeitos, as transformações mais radicais, o abandono, as permanências, a errância, a desordem afetiva, o poder e suas inflexões, as fissuras sociais, a imagem-tempo, a duração dos eventos, a imagem-movimento, a economia de fluxos, a queixa, o espírito dos tempos e o vago tremor de estrelas que o homem atual sente diante da configuração das micro e macropolíticas, e que certamente o levará a um passeio de reinvenção pelas  telas de cinema nos quatro cantos do capitalismo mundial integrado.
Por fim, nos parece que este trabalho deixa uma série de questões relativas a uma prática de crítica de arte, à possibilidade de dar ressonância à produção poética contemporânea, pondo-a a dialogar com o presente, com a diversidade herdada das lutas estéticas modernas, com as diferentes possibilidades e estratégias poéticas, com a institucionalidade da arte etc. Uma certa estratégia comparativa que praticamos, a aproximação de obras e percursos que trabalhem, de formas distintas, questões próximas ou afins - permitindo ao mesmo tempo figurar padrões da percepção contemporânea, e pensar a potência poética e a produção de sentido deflagradas pelo campo experiencial da obra, bem como as aberturas aí inauguradas para conhecer o presente cotidiano, com as teias simbólicas e os campos de força que o atravessam - parece também abrir um grande território de aventura de pensamento e exercício da linguagem, relativos a um campo, que, como dissemos, assume um papel tão mais importante quanto se torna incerta sua forma de ser na cultura contemporânea.
Certamente, seria possível, assim, conceber um conjunto de ilusões sucessivas, sem que se chegasse jamais a um “real”, uma verdade precisa e acabada. Cada uma delas seria, no entanto, vivida por mim como “verdadeira” a partir do instante em que desfaz a ilusão anterior e reintegra, diante de mim, uma totalidade nova de mundo. Há, pode-se dizer, um inatingível aqui: a luz que se espalha e constrói o espaço, menos ou mais íntimo, em que nos dispomos à aventura tipicamente moderna do cinema não cessa de se renovar diante de nós, desfazendo juízos provisórios e instalando novas soluções, de modo que podemos perfeitamente dizer que o filme nunca chegará ao fim.  Ser auto e mover-se são os nossos instrumentos; uma trajetória incerta. Afinal: “se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer: entre no meu carro...Caminhado assim, enfim, podemos celebrar a vida...


ESCALETA
Montagem: Bau Carvalho, Fábio Rocha e Pierry Pierry
Montador: Bau Carvalho


1.         AÉREA - (Animação - Créditos Iniciais) MONTAGEM PARALELA (Som de filme de ação no Black – Animação Motion Graphics - Créditos Iniciais)
2.         Abre o quadro - Apartamento assistindo televisão – Noite
3.         Movimentação no interior do quadro – plano fixo
4.         Rocha sai do apartamento - Vazio primordial
5.         Do apartamento da pra ver elçe comprando cerveja e cigarro (Rio vermelho/Praça da Dinha)
6.         Volta ao apartamento vê , ouve, lê livros... Afundado em coisas – silêncio/tédio
7.         Pierry sai e Rocha cochila
8.         Abre o quadro com um aluno cochilando e Pierry dando aula sobre teoria do cinema
9.         Fábio apresenta programa na RÁDIO LIVRE – PROGRAMA RÁDIO OFF – ENTREVISTA ANTONIN ARTAUD
10.      Os dois se encontram e saem de carro pela noite (das putas da Pituba aos travestis da Carlos Gomes, Brega, show, bebedeira, mais VAZIOS
11.      Voltam ao apartamento – conversam sobre política (bêbados) resolvem fazer um filme – marcam para a manhã seguinte. Cumprimentam-se e vão embora, cada um para um lado
12.       Rocha sai de carro e entra num beco qualquer (elipse)
13.      Manhã seguinte - Rocha de carro ouvindo som – Nick cave (Deph is not the end)
14.      PIERRY caminha lentamente por algum lugar – Pensamentos (OFF – acerca do cinema como linguagem)
15.      Rocha encontra Pierry no mesmo lugar (um beco qualquer “beco do mijo” /eterno retorno)
16.      Saem easyrider por Salvador – candomblé, briga-de galo, feira de são Joaquim, lapa, Itapuã, orla, museu Rodin (Acaso e caos, esse abismo insondável), ruas da cidade, Mais lugares vazios: dunas, aeroporto...repetição da diferença, parque vazio que tem na ribeira, etc) Param num barco abandonado – conversam sobre: O medo do goleiro diante do pênalti, O estado das coisasParis-Texas e,sobretudo, Alice nas cidades.
17.      Saem novamente de carro e acabam num caos do trânsito - Brotas 12:00 hs (Horário da norma)
18.      Voltam ao Apartamento - desta vez conversam sobre a linha de fuga - sair de salvador e procurar em outros lugares um motivo para fazer um filme
19.      Rocha pega Pierry numa Escada (Iguatemi - filmar de vários ângulos o mesmo plano - eterno retorno) e vão para o aeroporto - Resolvem ir pra são Paulo (aeroporto: pegam o avião)
20.      Dentro do avião – Close no rosto (pensamento longe)
21.      OS DOIS ANDANDO PELA PAULISTA
22.      CHEGANDO AO MASP - CENA DO VELHINHO com Wim Wenders caminhando pela exposição
23.      Cena de Fábio olhando tudo (voyeur)
24.      Cena de PIERRY vendo os quadros e a voz em off delirando
25.      CENA DE WIM ATRÁS DA CORTINA / vários cortes
26.      NOITE VAZIA DE SÃO PAULO – Rua Augusta
27.      Aeroporto – MANHÃ SEGUINTE (RESSACA) – Retorno a salvador
28.      Saem na “Escada” – ambos na maior solidão
29.      Entra no fusquete e voltam pra casa – assistem a um filme (HERZOG – Cobra Verde)
30.      Pegam o carro – fumam um baseado. Pierry lê o jornal no carro – comenta atrocidades que acontecem em salvador (CLÍNICA E CRÍTICA – OFF sobre a cidade; seus furores secretos, seus abismos, a invenção de  cotidiano)
31.      Vai nas igrejas do pelourinho – (Olham, desacreditam!)
32.      Andam mais e mais pela cidade e chegam ao Cemitério Campo Santo (Tem que ter!!! Necessidade estética)
33.      Praia da Gamboa – andando até a argila (Tabatinga) OFF (geopolítica dos trópicos)
34.      Programa de Rádio – Os dois passam por uma encruzilhada – Fábio pega a cachaça do bozó e Pierry fala que vai atrasar o lado do filme. Rocha sai bebendo e os dois vão para o estúdio fazer mais um programa. ENTREVISTA KRAJBERG.
35.      Saem de carro e chegam no Santo Antônio. Caminham pelo centro da cidade – Os dois vão até a prefeitura (praça dos pombos sujos) e resolvem se separar (Pierry desce o elevador, Rocha sobe o plano inclinado) passagens, puro movimento, devires)
36.      DOCCITY – WALKMOVIE. Estranheza, movimento sinistro, crack, mendigos, etc. Passeio pela cidade / tomando cerveja e falando de coisas, lugares, pessoas, cinema, estética, desajuste social.
37.      Param em frente ao Cine Glauber Rocha (um entra (qualquer um) e assiste: O medo devora a alma de Fassbinder – signo do Novo cinema Alemão/ Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Volker Schlöndorff. O outro chega ao primeiro Lugar estranho e quieto da cidade.
38.      Pierri sai do cinema e vai direto dar aula...Rocha rodeando o forte de são Marcelo de barco – mais delírios
39.      De súbito vão parar nas Dunas de Estela Maris/ Texto off sobre os motivos do cinema. O que tem pra filmar? Ainda vale à pena?
40.      Mais um lugar estranho – Rio Vermelho/silêncio/ o olhar dos cineastas para a CIDADE.
41.      Chegam num bar – poucas palavras. Um breve conversação sobre os problemas reais do cinema (plano, volume, profundidade de campo, cor, raccord, ecràn, mis-èn-scene).
42.      Saem do bar e chegam a Ilha de edição (Crise da metalinguagem) Entrevista por telefone com Peter Prizygoda – montador de Wenders) enquanto vemos no Timeline:  Eine Liebe Von Swann do diretor Volker Schlöndorff – Off sobre elementos do Novo Cinema Alemão.
43.      Cenas aleatórias da cidade - periferia
44.      Cada um em sua casa (Pierry assistindo as estradas perdidas do cinema: Wenders – trilogia dos Road Movies: Alice in the Cities (1974), The Wrong Move (1975), Kings of the Road (1976) -  Rocha na rede polindo uma lente
45.      Mais uma noite vazia – Qualquer lugar (dá no mesmo!)
46.      Manhã seguinte – Fábio acorda no carro e vai atrás de Pierry para mais uma tentativa
47.      Beco do infinito (Pierry entra no carro e sugere algum lugar (improviso fílmico) Lugar estranho – A profundidade do Hotel Pestana. Silêncio, caminhada, foto, REAL TIME (vários cortes)
48.      Saem de carro (novamente!) Caminham pela barra e começam a pirar. O filme não sai.
49.      Vão parar no pelourinho. Passeiam pelas suas coisas. Tiram foto de tudo.
50.      Chegam a algum lugar (estranho é claro!). Sentam e conversam na praia sobre o Vazio da cidade (Off): Terror de estar vivo nessa cidade, e qual o papel do audiovisual nesse momento da história (ACASO DOCUMENTAL)
51.      Novamente no Brega (ladeira da montanha) Bebendo e vendo show de Streapers.
52.      Saem conversando sobre erotismo. Passam pela porta do Jandaia, Pax, Capri, cineBahia, art, Excelsior, Gurany, etc
53.      Pesadelo: Fábio escaldando tudo numa praça e suando na cama, levanta vai até a cozinha, fica olhando da janela o silêncio da noite
54.      AFIRMAÇÃO DA VIDA NO VAZIO SOCIAL - no jardim de Alá
55.      BATENDO RANGÃO no mercado do peixe
56.      Iguatemi (passarela) sempre espiando
57.      Pierry dando aula SOBRE EISENSTEIN
58.      Monumento estético das sete artes (OFFs sobre imagens das sete artes) montagem descontínua (Tela de cinema, teatro, espetáculo de dança, visita a um escultor, atelier de pintura)
59.      VAI AO TEATRO – entrevista a Zé Celso telefone (cena do telefone) com o som de ARTAUD por trás (Para por fim no juízo de deus)
60.      VAI AO CINEMA (assistindo Asas do Desejo) – VOZES DA GALERA (Cineba)
61.      Programa de rádio – entrevista GLAUBER ROCHA
62.      VAI A UM ESPETÁCULO DE DANÇA – MOSTRA PINA BAUSH NA TV -VOZ DE PINA EM OFF
63.      VAI VISITAR UM ESCULTOR OFFS – KRASJBERG – Ecosofia
64.      VAI NO SHOW DO RETROFOGUETES - INTERCALADO com uma conversa COM PHILLIP GLASS (minimalismo) – Corversa sobre o musical Buena Vista Social Club (1999) e "Consagração da primavera", de Igor Stravinsky
65.      VAI A UMA BIBLIOTECA – LÊ ALGUMAS COISAS – MOSAICO E CONVERSA COM EDGAR MORIN (COLOCAR COMO SE FOSSE UM DIÁLOGO)
66.      Convida um pintor pra pintar os créditos finais – LUCIEN FREUD (Brincadeira pode ser Bel Borba!)
67.      Aparece numa balaustrada – VIAJANDO NA IMPOSSIBILIDADE DO CINEMA
68.      Centra num ponto no oceano (plano geral). Plano aproximado no mar. Fábio numa catraia. CINEMATONOMIA (OFFS) - fluxos nômades DO INCOSCIENTE.
69.      Pierry com um gravador na mão, revendo coisas dos 100 anos de cinema (CRÍTICA E CLÍNICA)
70.      Close da mão (gravador) (OFFS). Fábio vai a um funeral (olhar subjetivo para a cidade) - COMBATE AO ressentimento, má-consciência e falsa moralidade
71.      Campo e contracampo numa balaustrada (ribeira)
72.      TROCA DE SOM em casa/ Fusão de som => agonia /Pessoas falando/ oriki de oxalá/ berimbau/ vozes, vozes
73.      Fábio anda de bicicleta pela cidade. Off
74.      Retrocesso de imagens na MOVIOLA DIGITAL - retro 3 ou 4 vezes.
75.      Resolvem ir para Alemanha (filmar o processo de busca pelas passagens, protocolo de experimentação).
76.      TREM ENTRA AQUI SAI EM BERLIM (TRAINMOVIE)
77.      FORJAR UM SET DE FILMAGEM em Berlim (técnico de som, diretores, produtor, fotógrafo, tirando onda! Ainda que esvaziados de sentido, ou melhor, completo de vazios) indo atrás de Wim wenders (encontrando outros muros de Berlin)
78.      Filmamos num um ato de nostalgia intrigante de Pierry (qualquer uma, desde que seja na Ponta de Humaitá) em Berlim (da janela do quarto)
79.      Wim no trem - Tentativa de Autocrítica
80.      Rastros vagos de uma história – filmes de Wim Wenders – UMA BUSCA – INVESTIGAÇÃO IMAGÉTICO-SONORA – nos cinemas
81.      Percorremos algumas locações de seus filmes (Estado das coisas, movimento em falso, Asas do desejo, etc) – em seu FUSCA
82.      Mais lugares estranhos – desta vez paisagens sem autoria. Até encontrarmos o diretor e conversar com ele. O que se passou?
83.      ENTRAMOS NO TREM- WIM DIZ QUE VAI VIAJAR – FICAMOS NUMA ESTAÇÃO QUALQUER , ELE SEGUE VIAGEM. NÓS SAIMOS NA PRÓXIMA ESTAÇÃO E ENTRAMOS NUMA CURVA
84.      SAIMOS EM SALVADOR NUMA ENCRUZILHADA
85.      SALA DE MONTAGEM – finalizando o processo
86.      CIDADE ALTA  x CIDADE BAIXA - MARIELA SANTIAGO, enquanto dão um passeio pela cidade: ARROCHA, PAGODE, AXÉ, BRIAN ENO NA RADIO DO CARRO –uma espécie de road movie contracultural, pois "através de todos os códigos, do passado, do presente, do futuro, trata-se para ele de fazer passar algo que não se deixa e não se deixará codificar. Fazê-lo passar num novo corpo, inventar um corpo em que isso possa passar e fluir: um corpo que seria o nosso, o da terra, o do escrito..
87.      Entramos num trem com Wim Wenders em direção a qualquer lugar (sempre falando sobre o movimento)
88.      Resgates Memoráveis da história (OFFs) CONVERSAÇÃO dos diretores  no aeroporto – chegaram, e saem de carro. Para o carro.
89.      Fábio sobe a escada (sempre subindo)
90.      Pierry comporta-se como se não estivesse só em sua cama. Se remexe e sai de casa
91.      Rua - A repetição de tudo. Mais lugares, estranhos e quietos - O estranhamento, como quem diz: Você conhece a sua cidade? (espaços quaisquer). O autor dá uma série de indicações, que compõem um mosaico
92.      Fábio Recebe um telefonema (em alemão) que Wim vai chegar em salvador.
93.      Eles vão ao hotel buscá-lo. Comenta o filme feito inteiramente em 3D sobre a bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch.
94.       ROADMOVIE – o diretor de BMW por salvador – DOCUMENTÁRIO
95.      Chegam no MAM- museu de arte moderna
96.      WIM CAMINHA SOZINHO enquanto fala (Off) Pedimos para que ele se explique em relação a fazer um corte de 280 minutos de duração de “Até o Fim do Mundo” (1991), acerca do deserto vasto de “Paris, Texas” (1984), da solidão angelical de “Asas do Desejo” (1987) e da questão da morte em “Um Filme para Nick” (1980), em que registra a morte de Nicholas Ray (1911-1979). Oralidade maquínica.
97.      WIM DIRIGE DE VOLTA AO HOTEL
98.      Termina com Wim Wenders fazendo um plano da GAMBOA, tendo escolhido a câmera digital na batalha contra o dinossauro da película
99.      WIM WENDERS, ROCHA E PIERRY ANDAM (TERMINA CAMINHANDO – INTERROGAÇÃO? O QUE ESTÁ ACONTECENDO?)
100.   CRÉDITOS FINAIS – animação. As linhas que sobraram de tudo que foi experimentado...

FILME - PROCESSO

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